quinta-feira, 30 de outubro de 2008
quarta-feira, 29 de outubro de 2008
Quando e onde é que isto vai acontecer?
Para que conste a toda a gente (principalmente a toda a gente interessada nas andanças do nosso grupo), a peça em 3 actos "Isto Não Aconteceu", de Álvaro Cordeiro, vai ser levada à cena pelo Grupo de Teatro ExCena nos dias 13, 14 e 15 e 20, 21 e 22 de Novembro (é verdade, é já daqui a duas semanas!) no Auditório de Alfornelos.
Pronto: está dada a informação, já ninguém pode dizer que não sabia.
Atenção, porque o assunto é sério: isto vai mesmo acontecer!
Pronto: está dada a informação, já ninguém pode dizer que não sabia.
Atenção, porque o assunto é sério: isto vai mesmo acontecer!
terça-feira, 28 de outubro de 2008
ISTO NÃO ACONTECEU - Peça em 3 actos de Álvaro Cordeiro

Quem?
A Quadrilha Lírica, ou melhor: um bando de perigosos malfeitores do sub-mundo, especializada em esquemas não especializados, decide preparar um audacioso golpe que permitirá a concretização de todos os objectivos colectivos (bem como individuais). No decurso do processo, os membros da quadrilha deparar-se-ão com uma proprietária de estabelecimento comercial falida, um fala-barato decadente, uma activa prostituta na hora do descanso e uma insólita estrangeira, os quais inevitavelmente dificultarão o golpe, por causa dos seus próprios objectivos individuais (bem como colectivos).
A Quadrilha Lírica, ou melhor: um bando de perigosos malfeitores do sub-mundo, especializada em esquemas não especializados, decide preparar um audacioso golpe que permitirá a concretização de todos os objectivos colectivos (bem como individuais). No decurso do processo, os membros da quadrilha deparar-se-ão com uma proprietária de estabelecimento comercial falida, um fala-barato decadente, uma activa prostituta na hora do descanso e uma insólita estrangeira, os quais inevitavelmente dificultarão o golpe, por causa dos seus próprios objectivos individuais (bem como colectivos).
O quê?
O Diamantino, ou melhor: o Escrínio Criso-Diamantino, uma preciosidade da joalharia, cobiçado por uma longa lista de larápios e traficantes (e por todos os homens que jogam xadrez), o qual será transaccionado no mercado negro pela referida quadrilha, depois de ter sido roubado em circunstâncias misteriosas.
Onde?
Numa espelunca, ou melhor: numa tasca de estilo rústico em situação de insolvência, para onde todas as personagens acabarão por confluir, por obra das vicissitudes do audacioso golpe (e não só).
Numa espelunca, ou melhor: numa tasca de estilo rústico em situação de insolvência, para onde todas as personagens acabarão por confluir, por obra das vicissitudes do audacioso golpe (e não só).
Quando?
Durante um jogo de xadrez, ou melhor: no indefinido intervalo de tempo que medeia entre o recrutamento de um novo elemento para a Quadrilha, a elaboração dos planos, a execução de certos preliminares e a realização (des)concertada de todos os passos do audacioso golpe.
Durante um jogo de xadrez, ou melhor: no indefinido intervalo de tempo que medeia entre o recrutamento de um novo elemento para a Quadrilha, a elaboração dos planos, a execução de certos preliminares e a realização (des)concertada de todos os passos do audacioso golpe.
Porquê?
Por causa da poesia, ou melhor: por causa do jogo (de xadrez, evidentemente). Ou talvez seja por causa de ambas as coisas, que fazem parte da vida (não esqueçamos que o xadrez é a metáfora da vida em sociedade).
Por causa da poesia, ou melhor: por causa do jogo (de xadrez, evidentemente). Ou talvez seja por causa de ambas as coisas, que fazem parte da vida (não esqueçamos que o xadrez é a metáfora da vida em sociedade).
Confusos? Não vale a pena. No fim de tudo, poderão suspirar de alívio e dizer: isto não aconteceu…
quinta-feira, 25 de setembro de 2008
Diário-Construção X
Voltar ao útero materno. Sentir o espanto do mundo que nos envolve, a sede do líquido materno. Os primeiros passos, sem antes deixar de ser cúmplice com o chão que nos vai, contra gosto, beijando. A descoberta de um objecto metálico, frio, que me permite levantar e novamente tropeçar. Cresço e deixo-me invadir por um outro ser, estranho, arrogante, indisposto com a vida e com o mundo. Abandono, sem querer, a tranquilidade de um casulo que vou desejando e que me prende, no entanto. E ao subir as escadas recordo, por breves instantes, o monolítico presente em "2001 - Odisseia no Espaço". O osso, outrora corpo, passa a arma lançada no espaço, a nave que levará a personagem a envelhecer. A subida é feita com dificuldade mas sem hesitações. Olho o espaço lá em baixo. Volto-lhe as costas, agora mais acordado. Fecho os olhos.
E há um jogo de xadrez que me hipnotiza.
Paulo Martins
segunda-feira, 18 de agosto de 2008
"Diz-me como a chuva"
Ontem fui ver a peça "Diz-me como a chuva", de Tenessee Williams no teatro da Comuna.
Fui impelida pela curiosidade. Esta foi a primeira peça que fiz, foi quando terminei o 1º ano do curso de teatro. Na altura, a minha encenadora e professora foi a Cucha Carvalheiro, que é uma das actrizes da peça agora em cena. A vontade de ver a Cucha naquele que foi o meu lugar, de ver como seria a interpretação e a encenação, levou-me à Comuna no último dia da peça.
O texto foi o que me menos me entusiamou. Apesar de já o conhecer, continuo a sentir que é de dificil compreensão e demasiado fragmentado. Tería que o ouvir contar várias vezes, ou lê-lo novamente uma e outra vez de forma a encontrar as pontes de ligação entre as cenas e os personagens que na verdade são apenas dois que se desdobram.
Escrevo aqui, não apenas para descrever a minha ida ao teatro numa matiné de Domingo, mas porque fui atenta, quase em tom de pesquisa. Queria ver o corpo, queria sentir a encenação e os personagens. E senti. Quando trabalhei com a Cucha ela fazia questão que conhecessemos o corpo, que o usassemos e que o sentissemos. Dia após dia fazíamos exercicios e lembro-me que esta foi a única peça em que me deixei levar pelo extase do corpo sobre a mente racional e impeditiva.
E, mais uma vez, lá estava ela, a usá-lo. A fazer do corpo o seu fantoche, o seu actor para além do texto. As duas actrizes interpretavam diversos personagens, num palco cheio de "tralha", cada um demarcando um momento ou uma cena. Achei interessante o facto do vestuário ser sempre o mesmo e totalmente inócuo. As únicas mudanças ocorriam com o calçar de uma única luva ou de um único sapato de salto alto, ficando o outro pé descalço. Mas a verdade é que a personagem mudava em tudo, no andar, na voz, na postura, na sedução e no olhar. E o corpo ora mais saltitante, ora mais rigido, pesado, leve, constrangedor, perturbador, etc. Houve, até um momento, em que um quase-beijo encheu o palco inteiro de ânsia e angustia.
Podia falar e escrever muito sobre o que vi e acima de tudo do que aprendi, mas termino com a moral da história. Temos que nos soltar mais, oscilar mais os registos, procurar os desencontros em nós próprios e limar as exuberâncias sem as deixar cair, porque cada vez mais acredito que o ridículo também faz parte do real e do personagem que vive em nós.
Vamos a isto, sempre mais e sempre melhor.
Sónia
terça-feira, 12 de agosto de 2008
Sobre a poética do corpo
Depois de ler o artigo sobre Meyerhold, apressei-me a vir escrever-me e escrever-vos.
Durante muitos anos fiz dança e sentia o vibrar do meu corpo a cada pirueta, a cada salto, a cada movimento mais ou menos brusco que encontrava a música e se unia a ela numa fusão sempre simbiótica. Às vezes, ainda hoje, no recanto do meu abrigo, o corpo não resiste ao impulso e danço ao som da música e dos passos técnicos ainda recordados.
Mas no teatro não é assim. A escola que tenho é mais intrínseca e menos clownesca. O movimento que sempre segui foi o do sentimento que vinha de dentro e que fazia o público esquecer que era um actor que existia no palco, mas que se lhe assemelhasse pela empatia do sentir. O teatro pelo corpo do actor, faz-me sentir menos real e mais "ginásta". A verdade, é que, me parece quase incorrecto, porque logo me interrogo: e o sentir? Não pareceremos pitorescos demais?
Mesmo nos ensaios, surge-me uma castração natural ao actor pelo corpo, pois o exagero implicado no personagem, parece-me irreal e distante do objectivo pelo qual temos lutado até agora. E, na verdade, não consinto em levar o personagem ao limite, pois eu própria impus um limite preconcebido e preconceituoso ao personagem e à forma como deixo que molde o meu corpo.
Penso que na nossa forma de interpretar os nossos personagens sempre nos debatemos com uma luta entre o Id e o Superego, entre o que sentíamos querer expor do personagem e o limite do verosímel para o público. Na escola de Meyerhold surge o oposto, surge um Id autêntico, sem pudores nem gentilezas. Se me é dificil olhar as coisas desta perspectiva? Sim. Porquê? Porque sinto falta da técnica, do apoio que me permita libertar o corpo e a mente, expondo o ridiculo e o exagero contra o qual sempre lutei. Porque não temos trabalhado o corpo dessa forma, porque preciso de tempo e de treino.
É preciso deixar o corpo fluir...e o texto também...
Esta será uma nova aprendizagem, nova luta, novo fazer e refazer, um novo e grande desafio. Falta soltar as amarras que entorpecem o corpo e começar a usá-lo, a conhecê-lo e acima de tudo... a trabalhá-lo.
Sónia Ferreira
terça-feira, 29 de julho de 2008
Diário-Construção IX
(Sobre Meyerhold e uma poética do corpo)
(Nas indicações cénicas)
A personagem sai de casa e dirige-se para o carro. Leva as chaves na mão. Clica no botão, abre a porta e senta-se. Introduz a chave na ignição e roda-a uma vez. Baixa o vidro. Pisa o pedal da embraiagem até ao fundo e liga o motor. Coloca a mudança em ponto-morto e retira o pé do pedal. Liga o rádio. Cantarola. Coloca o cinto de segurança. Ajeita os espelhos retrovisores. Tira os óculos de sol da bolsa. Limpa-os, cuidadosamente, com um pano. Coloca-os. Liga o pisca-pisca esquerdo, volta a pisar o pedal da embraiagem, engrena a primeira mudança, olha para o retrovisor esquerdo, confirmando virando levemente a cabeça por cima do ombro. Acelera um pouco, soltando calmamente o pedal da embraiagem, permitindo que o veículo se ponha em marcha. Cantarola.
E recordo-me da histeria de movimentos que vi e fotografei aquando da apresentação da peça “Conflitos”, pelo GATUÉvora, no Fatal 2008. Impressionante. Apeteceu-me lá estar. A predisposição física foi uma lição de teatro. Um vendaval de sensações, apoiado por um texto que esqueci… o menos importante. Ficou todo aquele conjunto de movimentos alucinantes. Momentos houve em que só se ouvia a respiração tranquila e/ou ofegante dos actores. Teatro amador? Ironia das ironias… uma lição para muitos profissionais.
E é isto que me falta ainda. Trabalhar o corpo. Trabalhar. O corpo. Torná-lo o instrumento verdadeiro do teatro. Porque sei que antes de engrenar a primeira mudança, tenho que pisar um pedal. O da embraiagem. Assim, posso pensar que me basta sentar na cadeira, dizer brum brum brum e partir.
Posso sempre cantarolar.
(Nas indicações cénicas)
A personagem sai de casa e dirige-se para o carro. Leva as chaves na mão. Clica no botão, abre a porta e senta-se. Introduz a chave na ignição e roda-a uma vez. Baixa o vidro. Pisa o pedal da embraiagem até ao fundo e liga o motor. Coloca a mudança em ponto-morto e retira o pé do pedal. Liga o rádio. Cantarola. Coloca o cinto de segurança. Ajeita os espelhos retrovisores. Tira os óculos de sol da bolsa. Limpa-os, cuidadosamente, com um pano. Coloca-os. Liga o pisca-pisca esquerdo, volta a pisar o pedal da embraiagem, engrena a primeira mudança, olha para o retrovisor esquerdo, confirmando virando levemente a cabeça por cima do ombro. Acelera um pouco, soltando calmamente o pedal da embraiagem, permitindo que o veículo se ponha em marcha. Cantarola.
(No palco)
O actor vai em direcção a uma cadeira, colocada previamente pelo encenador, no centro do palco e senta-se. Coloca as mãos paralelas às pernas, como se conduzisse, imita o som do motor brum… brum… brum e põe-se em marcha vruuaam…
E recordo-me da histeria de movimentos que vi e fotografei aquando da apresentação da peça “Conflitos”, pelo GATUÉvora, no Fatal 2008. Impressionante. Apeteceu-me lá estar. A predisposição física foi uma lição de teatro. Um vendaval de sensações, apoiado por um texto que esqueci… o menos importante. Ficou todo aquele conjunto de movimentos alucinantes. Momentos houve em que só se ouvia a respiração tranquila e/ou ofegante dos actores. Teatro amador? Ironia das ironias… uma lição para muitos profissionais.
E é isto que me falta ainda. Trabalhar o corpo. Trabalhar. O corpo. Torná-lo o instrumento verdadeiro do teatro. Porque sei que antes de engrenar a primeira mudança, tenho que pisar um pedal. O da embraiagem. Assim, posso pensar que me basta sentar na cadeira, dizer brum brum brum e partir.
Posso sempre cantarolar.
Paulo Martins
segunda-feira, 28 de julho de 2008
Um novo desafio...
Cada peça, e acima de tudo, cada personagem é um novo desafio!
Desta vez o desafio é maior!! Pelo menos para mim está a ser maior, bem maior!
Estar meses (anos!!) sem entrar na pele de uma outra pessoa que não eu e dar-lhe vida perante outros olhares; ser uma personagem que também ela própria representa um papel; utilizar uma linguagem e forma de falar totalmente diferentes da minha;
Tudo isto tem sido um deafio, mas o mais dificil tem sido libertar-me, soltar o corpo, fazer o corpo mostrar o que a personagem é, o que pensa, o que sente!!
É certo que se olharmos os outros que passam na rua, os outros com quem falamos, os outros que se sentam na cadeira à nossa frente, a sua linguagem corporal diz muito, fala por eles! Mas agora transmitir isso na palco (ou até agora nos ensaios) tem sido muito difícil! Tão dificil que dou comigo a preocupar-me tanto com isso que me esqueço das deixas e da forma de falar...
Sem dúvida, desta vez o desafio é maior! Mas também maior é a vontade!!
Joana
Desta vez o desafio é maior!! Pelo menos para mim está a ser maior, bem maior!
Estar meses (anos!!) sem entrar na pele de uma outra pessoa que não eu e dar-lhe vida perante outros olhares; ser uma personagem que também ela própria representa um papel; utilizar uma linguagem e forma de falar totalmente diferentes da minha;
Tudo isto tem sido um deafio, mas o mais dificil tem sido libertar-me, soltar o corpo, fazer o corpo mostrar o que a personagem é, o que pensa, o que sente!!
É certo que se olharmos os outros que passam na rua, os outros com quem falamos, os outros que se sentam na cadeira à nossa frente, a sua linguagem corporal diz muito, fala por eles! Mas agora transmitir isso na palco (ou até agora nos ensaios) tem sido muito difícil! Tão dificil que dou comigo a preocupar-me tanto com isso que me esqueço das deixas e da forma de falar...
Sem dúvida, desta vez o desafio é maior! Mas também maior é a vontade!!
Joana
terça-feira, 22 de julho de 2008
segunda-feira, 21 de julho de 2008
Do trabalho do actor II
Desde que comecei a escrever teatro, sempre escrevi para actores. Isto é duplamente verdade.
Primeiro: porque concebo a escrita teatral como um desafio (escondido?) para o trabalho de actor, ou seja, gosto de criar personagens, gosto de vê-las fugirem de mim no papel e gosto ainda mais de ver o actor pegar nelas e transformá-las em qualquer outra coisa ainda mais fugida de mim. Nesse sentido, encaro a escrita teatral como o primeiro passo da montagem teatral, uma espécie de laboratório de invenção da personagem que depois será construída pelo actor: a minha imaginação desenha os componentes, o texto experimenta a sua resistência e eficácia, mas só o actor conseguirá operar a montagem que sintetiza e depura tudo o que, até ali, foi apenas esboçado. Porque o palco é mais próximo da vida do que o papel e, por isso, a peça (e as personagens da mesma) são mais completas na cena implantada do que no texto escrito.
Segundo: porque existem actores reais que são a motivação para a minha escrita. Todo o teatro que escrevi até hoje foi em resposta directa a uma necessidade, muitas vezes porque havia um grupo com uma data marcada para uma estreia para a qual era preciso ter uma peça. Este é um dado de extrema importância, não só porque cria uma urgência que, de acordo com o meu temperamento, favorece o engenho, mas também porque define um objectivo imediato, dá-me a garantia de que o que escrevo será efectivamente representado em breve. Aspecto que chega a tornar-se vital para quem, como eu, existe apenas na e pela sua própria escrita...
Na verdade, se não fossem os actores reais, de carne e osso, para os quais escrevo, suponho que nunca me teria aventurado nos meandros da escrita teatral. A sua vontade de fazer teatro torna-me devedor de uma obrigação que só posso resgatar pela escrita. Por isso continuo a escrever. Por isso continuo a desejar que eles agarrem na minha escrita e a levem mais longe, transfigurando as personagens que lhes apresento e sublimando os textos que lhes dou em esboço. Sei que não é por mim que o fazem (e ainda bem!...). Sei que são amadores e que o fazem por eles próprios e pelo teatro. Encontramo-nos aí: essas são também as duas razões por que escrevo.
Álvaro Cordeiro
Primeiro: porque concebo a escrita teatral como um desafio (escondido?) para o trabalho de actor, ou seja, gosto de criar personagens, gosto de vê-las fugirem de mim no papel e gosto ainda mais de ver o actor pegar nelas e transformá-las em qualquer outra coisa ainda mais fugida de mim. Nesse sentido, encaro a escrita teatral como o primeiro passo da montagem teatral, uma espécie de laboratório de invenção da personagem que depois será construída pelo actor: a minha imaginação desenha os componentes, o texto experimenta a sua resistência e eficácia, mas só o actor conseguirá operar a montagem que sintetiza e depura tudo o que, até ali, foi apenas esboçado. Porque o palco é mais próximo da vida do que o papel e, por isso, a peça (e as personagens da mesma) são mais completas na cena implantada do que no texto escrito.
Segundo: porque existem actores reais que são a motivação para a minha escrita. Todo o teatro que escrevi até hoje foi em resposta directa a uma necessidade, muitas vezes porque havia um grupo com uma data marcada para uma estreia para a qual era preciso ter uma peça. Este é um dado de extrema importância, não só porque cria uma urgência que, de acordo com o meu temperamento, favorece o engenho, mas também porque define um objectivo imediato, dá-me a garantia de que o que escrevo será efectivamente representado em breve. Aspecto que chega a tornar-se vital para quem, como eu, existe apenas na e pela sua própria escrita...
Na verdade, se não fossem os actores reais, de carne e osso, para os quais escrevo, suponho que nunca me teria aventurado nos meandros da escrita teatral. A sua vontade de fazer teatro torna-me devedor de uma obrigação que só posso resgatar pela escrita. Por isso continuo a escrever. Por isso continuo a desejar que eles agarrem na minha escrita e a levem mais longe, transfigurando as personagens que lhes apresento e sublimando os textos que lhes dou em esboço. Sei que não é por mim que o fazem (e ainda bem!...). Sei que são amadores e que o fazem por eles próprios e pelo teatro. Encontramo-nos aí: essas são também as duas razões por que escrevo.
Álvaro Cordeiro
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