quinta-feira, 19 de junho de 2008

Diário-Construção VII

Mais do que a frustração de não se conseguir decorar o texto à velocidade que se quer, é o facto de já se ter decorado texto, já se terem feito as cenas e, subitamente, tudo se esquecer, de uma semana para a outra. Não que não se tenha lido todos os dias o texto. Não que não se tenha tentado decorar mais texto. Não que não se tenha escrito as notas das marcações, de ideias que vão surgindo, à noite, quando se pode, se consegue decorar texto. Mas, simplesmente, porque se ficou em branco. Marcações, gestos, personagem, tudo parece feito numa primeira vez. Tudo parece sair com uma incoerência gigantesca. E, acima de tudo, a sensação que se está a prejudicar o grupo. Porque o avanço de uns só é feito, também, com o dos outros. Poderão ser utilizadas as mais variadas (e verdadeiras) desculpas: os dias que não se almoçam por causa de uma profissão cada vez mais voraz, cada vez mais desgastante, os dias em que se chega a casa e só apetece fechar os olhos por causa de um cansaço pesado que nos afasta de um texto cada vez mais preciso, os problemas-outros que nos vão fazendo caminhar de uma forma mais lenta e arrastada...
Hoje foi assim. Fragmentos de um actor amador que por o ser ama o teatro e sente a dor de não o conseguir fazer.
Apetece fechar a cortina.
Paulo Martins

domingo, 15 de junho de 2008

Diário-Construção VI

Não foi fácil manter a garrafa vazia no ar. As onze tentativas seguidas com sucesso soltou-nos e fez-nos sorrir, o que é sempre agradável para o ensaio das cenas. A forma como a garrafa roda pelo ar, o cuidado em lhe dar a palmada no sítio certo levanta, realmente, algumas dificuldades. Mas tentámos e acabou por resultar. Talvez seja importante voltar a fazer o exercício. Também as personagens vão rodando de diversas formas e vamos experimentando outras formas de falar, outros gestos. Somos, no fim, garrafas no ar, desejosas de ser bem amparadas e lançadas. Foi curioso o ensaio na rua, na esplanada da pastelaria. A cumplicidade entre as duas personagens, a desconfiança, as outras personagens que se iam metendo pelo meio para procurar reacções.
De regresso ao nosso espaço, o ensaio de uma cena nova, a do jogo de xadrez entre o Hugo e o Armando. Começámos de uma forma muito "leve", para irmos afinando pouco a pouco. A Benvinda acabou por estar presente naquele jogo e foi importante por causa do charme do Armando. Houve momentos em que me lembrei de uma peça da qual tenho muitas saudades. A contracena com o M é sempre muito divertida e cheia de energia, o que já tinha acontecido aquando da batalha com uma espada e com uma... meia espada.
Continua a ausência, entretanto. E o cansaço.
E fecha-se a cortina.
Paulo Martins