quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Diário-Construção XIII

"Uma personagem, senhor, pode perguntar a um homem quem é. Porque uma personagem tem verdadeiramente uma vida sua, marcada por características suas. Por isso, ela será sempre alguém. Enquanto que um homem - não aludo ao senhor, agora - um homem, assim, em geral, pode não ser ninguém".
in Seis personagens à procura de um autor, Luigi Pirandelo
Paulo Martins

domingo, 23 de novembro de 2008

Diário-Construção XII

E é também por isto que gosto de teatro. Porque ao longo da vida vai-se perdendo a capacidade simples e inocente de brincar e, por pequenos períodos de tempo, demasiado pequenos, se volta a brincar ao faz de conta. E fazemos de conta que somos quem nunca poderíamos ser. E fazemos de conta que somos até o que somos. Porque nada é indissociável. E depois desses períodos de tempo, muito curtos, demasiadamente curtos, volta aquele vazio. E ainda que o seja, há uma plenitude, um sorriso. Foi-se feliz, fez-se alguém feliz.
Paulo Martins

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

A parte de fora e o lado de dentro

Vista por fora, a peça é um efeito exterior; vivida por dentro, é o corolário de um processo interior.
Vista por fora, a peça é maior ou menor perfeição, fluidez narrativa, verosimilhança cénica, consistência de personagens; vivida por dentro, é a meta (ou o ponto visível tornado meta) de um percurso feito de interrogações, obstáculos, riscos, falhanços, insistências, dúvidas, persistências, conquistas, sonhos e realidades.
O teatro é fascinante por isso: a parte de fora é diferente do lado de dentro. E não é de todo a mesma coisa apreciá-lo de um local ou do outro da invisível parede vivencial que separa a cena do anfiteatro, que afasta os actores do público.
Por isso, as sensações, emoções e reflexões que “Isto Não Aconteceu” proporciona a todos quantos já assistiram à sua representação são claramente diferentes das sensações, emoções e reflexões que a peça provoca em quem está envolvido na representação e encenação do texto. E, por isso mesmo, o testemunho que dela se pode dar é sempre parcial, sempre incompleto.
Talvez o verdadeiro sentido da peça esteja no misto das duas coisas: a parte de fora e o lado de dentro. Mas quem poderá saborear essa plenitude?
Talvez eu, que escrevi o texto. Talvez esse verdadeiro sentido, a que actores e público só acedem em parte, corresponda a uma espécie de essência primordial – a ideia! – que está contida no texto (e que, porventura, o texto não consegue transmitir nem mesmo a quem o desmonta para o implantar em cena…).
Permitam-me esta vaga presunção: acho que, no fundo sou eu quem, no acto da escrita, consegue saborear, ainda que fugazmente, a verdadeira dimensão de tudo o que acontece à volta de “Isto Não Aconteceu”… de fora e por dentro.
Hão-de dizer-me que, nesse caso, eu poderia testemunhar da forma mais completa o significado de tudo. É verdade, e é isso que eu faço. Por isso escrevi o texto.


Álvaro Cordeiro

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Está quase!!!

Está quase, já começo a sentir a ansiedade.
A adrenalina, inicia, suavemente a invasão do meu corpo e sinto-me vibrante e indefesa, perante o ataque.
Já o sinto, está quase. A oscilação flutuante entre a alegria e a angústia, entre o entusiasmo e o medo.
Está quase, já o sinto no corpo. É estranho, parece um formigueiro que cresce e expande tecido a tecido, musculo a musculo. É uma sensação de quase dormência do ser, de extase e entrega a um eu que não sou eu, mas que também sou. É confuso, inexplicável.
Estou plena de uma energia que me invade e faz emergir em mim poderes desconhecidos que me impelem a disfrutar de uma ousadia inerente a todos os seres humanos.
Gosto deste espaço cénico que é a vida e da vida no teatro.
Gosto da partilha de sorrisos, de raivas, de receios e abraços.
Gosto da entreajuda e das zangas.
Gosto da vontade de crescer.
Gosta de sentir que isto vai mesmo acontecer!!!

Sónia Ferreira

Localização Teatro Passagem de Nível

(Ver aqui)

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Antestreia

Sinto sempre um sabor especial, quando se aproxima a data de estreia de mais uma peça escrita por mim. É uma espécie de vertigem acompanhada de saudade, uma curiosidade ansiosa de ver em que se tornou afinal o texto que entreguei ao encenador, com alguma pena de que tenha deixado de ser meu.
Não posso intervir na montagem da peça. E, se pudesse, creio que não gostaria de fazê-lo, porque o meu momento é o da escrita. E eu gosto demasiado de fruir o meu momento para ser capaz de interferir na fruição dos momentos próprios de quem desmonta o texto, constrói as personagens (o fascinante trabalho de actor!) e implanta o texto em cena, introduzindo-lhe apontamentos e variações insuspeitas para mim, mas que talvez já lá estivessem…
Sinto sempre um sabor especial, quando se aproxima a data de estreia de uma peça escrita por mim. É uma espécie de plenitude acompanhada de dúvida, uma grande satisfação por saber que há um grupo que se entusiasmou suficientemente com o texto para ousar levá-lo à cena sem saber se, afinal de contas, ele interessará a alguém.
É sempre isto que me faz não querer escrever, de cada vez que me apetece escrever: esta sensação de que não há mais nada para dizer, porque decerto já tudo foi dito da melhor maneira possível por todos os seres humanos dotados da capacidade da escrita que escreveram antes de mim. E, no fundo, acaba por ser exactamente esta convicção de que todas as minhas ideias são tão pouco interessantes que me desafia a lançar-me novamente na aventura da escrita, na mira de conseguir um resultado que mereça algo mais do que o destino do cesto dos papéis.
Sinto sempre um sabor especial, quando se aproxima a data de estreia de uma peça escrita por mim. E, no caso de “Isto Não Aconteceu”, esse sabor é mesmo especial. Porque escrever este texto foi um grande desafio para mim; porque montar este texto em peça foi (está a ser e creio que continuará a ser) um grande desafio para os actores e encenadores; porque assistir ao espectáculo será também um desafio para o público: afinal, até onde quererão levar a sério toda aquela brincadeira, até onde quererão rir da seriedade de tudo aquilo?...
Sinto sempre um sabor especial, quando se aproxima a data de estreia de uma peça escrita por mim. O que vale é que tudo passa depressa, grosseiramente depressa. A firme impaciência dos sonhos impele-me para a frente e a frágil complacente memória das coisas permite-me encolher os ombros e perguntar: será que, afinal, isto aconteceu?

Álvaro Cordeiro

Ensaios - "Isto Não Aconteceu"

Voltámos a um espaço que nos é muito querido. A sala do Teatro Passagem de Nível. Um grupo que já há alguns anos nos acolhe de braços abertos. Ficam as primeiras fotos dos ensaios feitas com um telemóvel (porque a máquina ficou esquecida em casa).
Está quase.


quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Diário-Construção XI

Há estados de espírito muito difíceis de explicar. O do momento de antecipação da estreia é um deles. Há qualquer coisa que se começa a formar, muito subtilmente, no estômago. Parece um vazio, por vezes. Outros, uma espiral que vai crescendo. O corpo vai-se preparando, ao longo do dia para o grande dia. É uma antecipação que se pode tornar num medo enorme de saltar para o palco, para esse mundo onde muitos eu-outros passarão a comandar uns quaisquer destinos designados por uns quaisquer deuses. Depois, há aquele claro nervosismo, como se estivessemos no topo de uma montanha gelada e o nosso corpo, simplesmente, não nos obedecesse, tal o frio interior que se sente. Os primeiros minutos são de terror puro. Os músculos vão acalmando, aquela entidade que paira sobre nós e que tudo controla vai-nos dizendo

goza o momento deixa-te ir aproveita a oportunidade do privilégio que é aqui estares porque o que estás a fazer é especial.

Deixamo-nos ir. É o tudo ou nada. Se algo falhar será necessário improvisar, gritar pela ajuda de quem ali está, com os olhos. E esperar que, no fim, saíamos daquele espaço com um sorriso nos lábios, pelo tanto que se deu, pelo tanto que se viveu. Porque, depois, amanhã, é um novo dia.

Paulo Martins